sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Carreira

Vez ou outra ouço dos meus próprios colegas de turma oriundos da tropa, ou até de alguns que não passaram por essa etapa, também surgindo eventualmente em tópicos de discussões no Orkut, um fomento à idéia de que na Polícia Militar o ingresso só deveria ser permitido como soldado, galgando-se a partir daí as demais graduações e postos, até alcançar o grau de coronel comandante geral. Inicialmente não compactuo com a idéia, principalmente pelo fato de ser apresentada geralmente rodeada de exclamações e letras maiúsculas quando escrita, ou de gesticulação excessiva e voz alterada quando falada. Falta aí algum estudo, cientificidade, um mínimo respaldo técnico ou racional que alicerce os argumentos dos defensores da tese. Sei que não é um expediente razoável, mas tal como fazem muitas partes em discussões empíricas, é possível recorrer a comparativos um tanto impróprios para apontar ao menos uma aparente falha nesta idéia. Nas Forças Armadas, todas as três, ingressa-se tanto nas mais baixas graduações quanto em nível intermediário, no primeiro posto de oficial. Para os que não gostam de ser militares, pode ser lembrado aos tantos oficiais e praças que idolatram a Polícia Federal como maior sonho de consumo que lá há o acesso como agente e como delegado, bem como na Polícia Civil, não exigindo-se que se "comece por baixo". Em qualquer esfera do âmbito privado é assim, o pedreiro não se transforma em engenheiro pelo mero passar do tempo, do médico não é exigida a vivência técnica de enfermagem antes de exercer sua profissão, assim sucessivamente. Não vejo como má em seu todo a idéia de que os PMs ingressassem obrigatoriamente como soldados, possivelmente há fatores positivos, mas aparenta ser injustificável tal exigência, por razões diversas, como a elencada acima.

14 comentários:

Anônimo disse...

achei um tanto quanto equivocada suas comoparações, visto nunca poderia um agente ou um policial Federal ser Delegado sem que os mesmo tenham cursado advocacia. Portanto a concorrencia para tais cargos são diferenciadas.
E quando se trata de policia militar esse metodo seria um clalro respeito aos policias que internamente procuram valorizar sua investidura militar tratando a nossa PMBA com respeito e amor, sendo também um meio de fazer valer o plano de carreira.

Victor disse...

Só uma breve correção, é exigido o curso de direito, e não advocacia, para quem tenta ser delegado. Ao menos nos últimos concursos, para agente basta qualquer nível superior. Na polícia civil, que "está mais próxima da pm", um agente não se torna delegado ao longo do tempo, só se for realizando um concurso. Deixei claro que os comparativos não são perfeitos, porém costumo perceber por parte de pessoas que defendem essa tese um certo descontentamento com o militarismo, recorrendo várias vezes às polícias civil, federal e até rodoviária federal como uma referência de melhor condições tendo em vista lá não haver hierarquia militar. Hoje nada impede que um PM alcance o oficialato, nem mesmo a idade avançada, basta o mesmo obter êxito no vestibular da UNEB, que ocorre todo ano, e agora com grande número de vagas.

Anônimo disse...

agradeço pela correçào, mesmo assim não muda o meu sentimento de injustiça!

José Ricardo disse...

Sensibilidade e empatia. Talvez sejam essas qualidades que faltem aos oficiais que não são "oriundos da tropa". Nada contra quem ingressou na PM no meio da hierarquia militar. Assim eu quero que aconteça com o meu futuro filho, talvez por desejar poupá-lo de humilhações e sofrimentos. Mas, no meu coração, guardo que seria importante ao oficial ter vivido a realidade das ruas, como soldado, em contato direto com a violência, sob ordens, ordens muitas vezes... bom, deixa isso para outra hora.

Ter sido soldado é uma experiência real, não teórica. É diferente de fazer um estágio como sentinela ou no policiamento a pé, ou no comando de guarnição de radiopatrulhameto. É diferente porque é real. Você é soldado, e nã finge ser soldado.

Às vezes, fico pensando o que sente um cadete em seu primeito dia na PM, ingressando com superioridade hieráquica acima de 90% do efetivo da corporação. Um subtenente, com seus 29 anos de Polícia, é obrigado a fazer continência ao cadete em seu primeiro dia na PM, que nada sabe de Polícia, talvez nem de hierarquia militar. E continência não é cumprimento, porque, se fosse, não seria obrigatória. Um subtenente é obrigado a chamar o cadete de senhor.

Eu já fiz dois cursos de forrmação e alguns treinamentos, e, em todos eles, os melhores professores eram aqueles "oriundos da tropa". Por que? Porque conhecem a realidade das ruas, o que realmente faz a diferença, porque conhecem a prática, e não somente a teoria. Porque "ralaram" junto com a tropa, como cumpridor de ordens, ordens mutas vezes...
E o mesmo acontece em outras instituições. Um delegado que não foi detetive não conheçe a prática da investigação, o dia-a-dia dos plantões, e tantos outros detalhes práticos, muitas vezes julgados banais, mas que não são, porque fazem a diferença. Ficam apenas na teoria da fria legislação, ou das teses acadêmicas tão distantes da realidade.

Um médico que não foi enfermeiro não sabe o que é trocar a fralda de um paciente...

Existem bons oficiais que não são "oriundos da tropa". Sim, existem, e o diferencial deles é a empatia e a sensibilidade. É colocar-se no lugar do outros.

O verdadeiro líder é aquele que serve, já dizia Jesus. Ou seja, é aquele que fornece as condições propícias para o bom trabalho dos subordinados, ou para a eficiência e a eficácia da serviço. Muitas vezes, a eficácia está na tática, e não na estratégia. São detalhes que fazem a diferença. Talvez esses detalhes possam passar despercebidos por quem nunca foi soldado.

O presidente Lula, certa vez, disse mais ou menos isto: "Nunca nenhum presidente se preocupou com a saúde bucal do povo. Claro, nenhum deles nunca sentiu dor de dente, a vergonha de ser banguela. Nasceram todos em berço de ouro."

Mas não adiante discurtimos isso. Nunca vai mudar, sempre será da forma que é. Qual coronel vai querer que o filho dele viva na senzala. Nenhum. Todos desejam que os filhos vivam e cresçam na casa grande. Até eu quero que meu filho viva na casa grande, mesmo sabendo que seria importante para ele conhecer a realidade da senzala e dos escravos, e do serviço do escravo.

É assim, sempre foi assim, e sempre será assim.

Victor disse...

Interessante sua argumentação, José Ricardo, contudo acredito que a solução para termos melhores comandantes está longe de fazê-los passar necessariamente por todos os graus hierárquicos antes de alcançar funções de comando. O atual comandante geral da PMBA iniciou sua carreira como soldado na corporação, assim como uma significativa parcela dos oficiais como um todo, afinal no quadro administrativo só há tenentes e capitães que permaneceram muitos anos como praças, e nas últimas turmas do CFO pelo menos 25% dos formandos foram oriundos da tropa. Enfim, há mais oficiais que foram praças do que se imagina, alguns teimam em desconsiderar esse dado ao fazer juízos de valor generalistas e precipitados.

José Ricardo disse...

Concordo que não seria preciso passar necessariamente por todos os graus hierárquicos antes de ingressar no CFO. E acho que deveria ter um concurso, não sendo o ingresso no curso apenas por tempo de serviço.

Acho, também, que a liderança é própria da pessoa. Independe de ter sido ou não soldado, embora "conhecer o chão da fábrica" possa contribuir para a formação da personalidade e para a importante experiência profissional.

Nada vai mudar, eu sei, mas, no meu coração, guardo que seria importante ao oficial ter vivido a realidade das ruas, como soldado, em contato direto com a violência, sob ordens, ordens muitas vezes...

Anônimo disse...

Anonimo das 7:4

Uma vez que o ingresso no oficialato se dá meiante CONCURSO PUBLICO, acessivel a todos os praças (independentemente de idade), onde está a injustiça?

Anônimo disse...

AH, entendi. O topico está sendo discutido sob a otica maniqueista: todo oficial que veio da tropa e bonzinho e sensivel e todo oficial "do mundo civil" é mauzinho e insensivel.
Fosse verdade esse axioma, todos os oficiais QOAPM seriam maravilhosos, sensiveis e mais operacionais que os QOPM. Lamento, mas não são.

Anônimo disse...

Lamente!Más essa é a realidade com raras exeções encontramos oficiai vindos do mundo civil que nem mesmo passaram pela
APM que sabem tratar bem os seus supordinados.
A maioria dos alunos que não são militares ou tem pais militares, não gostam da PM e principalmente em Salvador levam a vida fazendo arruaças, e mesmo quando já cadetes não é raro ao tentarmos resolver uma ocorrencia de desordem encontrarmos um aluno querendo ser o tal e tentando critar ordens para GU.,sendo muitas vezes apresentado ao oficial de operação, que nestes momentos geralmente o humilhão, fazendo que o mesmo aumente seu odio pelos praças, e rezando para chegar a hora de se vingar.

Anônimo disse...

Acima quiz dizer Colégio Militar e não APM

Victor disse...

A empatia, enquanto qualidade de se colocar no lugar dos outros, é algo que independe diretamente do posto que se ocupa. Há quem seja arbitrário, autoritário e totalitarista em ambientes não militares, em empresas particulares, nas mais variadas situações. Outros até o são internamente, só lhes faltando a oportunidade de expor tal faceta. São peculiaridades do caráter individual, formadas muito além das salas de aula.

Anônimo disse...

Victor você falou e disse tudo, agora essa é justamente uma questão de personalidade.

Anônimo disse...

Na Brigada Militar do RS, é exigido o curso de BACHARELADO em DIREITO para ingressar meio as fileiras como oficial intermediario. Na polícia americana todos ingressam no mesmo cargo e são promovidos de acordo com os critérios estabelecidos lá. O grande barrismo incorporado em nosso meio é o militarismo que castra toda e qualquer possibilidade de ascenção... Existem exemplos, muitos BONS exemplos de pessoas que galgaram para o oficialato tendo vindo da tropa. Forças armadas são forças armadas, missão diferente, valores diferentes, situações diferentes e tudo divergente do método de policiamento. O médico aprende em prática e teoria antes de se formar e este passa por no mínimo 6 anos de curso... Ainda assim, existem bons e péssimos médicos! Então, a justificativa elencada, ao meu ver, se faz incoerente com alguns fatos.

Divaldino disse...

Podem parecer repetitivos os meus comentários com relação ao caráter militar da polícia. Mas eu não vejo como não ter como matriz de carreira, hierarquia, organização administrativa, penal, etc., as forças armadas. Pra exemplificar de forma bem simples: policial civil não comete crime militar. Então, quem discorda das doutrinas militares sendo empregadas na PM, ou concorda com a desmilitarização (o que seria coerente), ou aceita a vida castrense (o que não é nenhum bicho de sete cabeças).
Mas, mesmo optando pela desmilitarização, é bom lembrar que ela (ainda) não ocorreu, portanto somos militares estaduais, e temos uma missão a cumprir. Vamos agir como tal.

 
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