sábado, 7 de junho de 2008

Jornada

Divagando sobre a JAPAR/JIM realizada na PMBA, imprimo algumas visões particulares, apesar de não embasadas em grande experiência anterior, porém originária de reflexões constantes. A jornada envolve pouca simulação de ocorrência, mesmo se pensando em área rural. Duvido muito que policiais militares ao longo de suas carreiras recorram a cabo submerso, falsa baiana, comando craw, ponte de 3 cordas e outras técnicas empregadas na transposição de cursos d`água. É prática tipicamente militar, adequada à realidade das Forças Armadas. Também vejo com certa restrição a oficina de agentes químicos, por exemplo, onde escassa teoria e técnica foram passadas, valorizando-se mais a vivência da sensação de inalar o gás e sofrer suas conseqüências. Possivelmente eram estes mesmos os objetivos, só de sentir o efeito, sem tomar conhecimento do lado científico da susbtância, nem tampouco compreender a fundo como se emprega em situações práticas. Seqüências de noites mal-dormidas, refeições mal-efetuadas e falta de banho ou práticas de higiene costumam durar bem menos do que no caso em estudo. As pressões psicológicas no cotidiano são um pouco diferentes, há prazos de trabalhos, cobrança de resultados estatísticos, alcance de metas que não se resumem a alopração verbal nos ouvidos. O receio em estar em contato com uma serpente ou matar coelho e galinha a socos é distante do enfrentamento de uma turba furiosa, ou de participar de uma troca de tiros com traficantes. Enfim, estas ao lado de outras etapas da jornada demonstram o predominante caráter de traquejo que supera com folga a intenção de aprendizado. Acredito que seja como em certos cursos da área operacional, onde o foco se volta mais para o culto de tradições militares do que para absorção de conhecimentos. Costumo crer que são cursos para mudar a cabeça do homem que o faz, e não a sua capacidade técnica como um todo. Não nego nem confimo que a partir de um certo volume de traquejo vivenciado o policial possa expressar mais seus instintos violentos, bem como venha a suportar e superar dificuldades antes tidas como impossíveis, em virtude dos testes a que fora submetido anteriormente e conseqüente convencimento do potencial de superação. Resumidamente, opino pela continuidade da realização desta atividade, contudo atentando principalmente para a época em que será praticada, parecendo mais oportuno no início do curso, quando o lado militar é mais exaltado, já que mais à frente podem surgir questionamentos sobre como preparar um PM para sobreviver na selva se ele mal sabe manusear e manutenir o armamento de emprego ordinário na sua atividade fim, ou desconhece grande parte da legislação que regulamenta o exercício policial.

12 comentários:

Pracinha disse...

Antes de comentar, tenho duas perguntas a fazer:
1- Em qual ano do CFO o sr. se encontra?
2- É a primeira vez que o sr. participa do JARPA/JIM?

Victor disse...

1 - Na última semana do 2º ano, partindo para os 2 semestres finais.
2 - Sim, e a previsão normal é de que seja realizada somente uma vez durante o curso.

Pracinha disse...

Na corporação onde sirvo, os cadetes do CFO todo ano passam pela aqui chamada "jornada militar". Pareceu-me ser bastante semelhante à JAPAR aí da Bahia. Em vários outros cursos daqui também tem jornada militar, a exemplo do curso de soldado, do curso de sargento e do CHO. Na minha opinião, esses pseudotreinamentos são mais realizados pela tradição, muito embora eu ache que todo policial militar deva ter um espírito forte, preparado para as agruras do dia-a-dia da profissão. Sou totalmente contra as humilhações. Num ponto discordo da sua opinião. Eu acho que esses pseudotreinamento devam ser revistos, não somente pelo aspecto de quando devam ser realizados. O serviço de policiamento ostensivo é precipualmente uma ativida de cunho civil. A maioria dos países de primeiro mundo não adotam o sistema militar em suas polícias. Quase todos os países desenvolvidos adotam uma polícia unificada e civil. Será que aqui no Brasil isso não funcionaria?

Victor disse...

Tenho certa repulsa a comparativos internacionais, não vejo qualquer país como semelhante ao Brasil, sendo assim parece precipitado crer que se tal modelo funcionou bem em uma nação, aqui o resultado seria semelhante; vale conhecer o que ocorre lá fora para ampliar os horizontes, mas nosso povo, cultura e características são sempre diferentes.
Voltando às jornadas, elas carregam a desvantagem de ser onerosas, porém a remuneração parece atrativa para quem está envolvido na instrução, seja oficial ou praça, mais um motivo para permanência da prática. Quanto ao cunho civil, desconcordo em parte, acho que o caráter militar auxilia muito o desempenho de funções no policiamento de choque, ou no BOPE aí do RJ por exemplo.

Pracinha disse...

Só um detalhe... Eu sou de MG.

Divaldino disse...

Considero de muita valia tecer comentários acerca dessa nossa atividade recente, e conclamo nossos colegas de turma a fazê-lo.
Após fazer um balanço do que ficou de negativo ou positivo após a realização da JAPAR, não encontrei muitos resíduos. Acho que apenas tenho um melhor embasamento para opinar acerca da importância (ou melhor, da falta dela) desta atividade para a minha vida policial-militar. Alguns colegas e/ou Oficiais ainda afirmam que é útil o aprendizado, pelo menos pela experiência. Aí eu penso: se fosse uma viagem de navio, uma instrução no mar, com exercícios de guerra naval, tiro real, etc? Também não seria experiência? Mas teria alguma valia na minha carreira policial-militar? Acho que não. Para alguns, a minha comparação parece ser esdrúxula, mas creio que esdrúxulo mesmo, é colocar um policial-militar pra passar sede e fome em plena mata atlântica, onde encontra-se suprimentos de água e alimento com facilidade. O detalhe é que éramos proibidos de ir em busca disso. Ou seja: nem mesmo a sobrevivência na selva era exercida.

Victor disse...

Pracinha, sempre tive a impressão de que era do RJ, valeu pelo esclarecimento.
E Divaldindo, tem razão no que diz, e conforme já explicitei esta jornada possivelmente é seqüela da condição de reserva do Exército que constitucionalmente a PM se encontra, talvez por isso não haja manobra em navio ou aeronave. Pode-se dizer que foi como ensinar a um PM como pular de para-quedas, utilizar lança-rojão ou fazer uma operação de mergulho; atividades que têm alguma proximidade com o ofício, mas rara probabilidade de acontecer no dia-a-dia.

Emmanoel Almeida disse...

Victor, oportunas suas considerações.
Penso q a Jornada ñ era imprescindível para nossa formação profissional. Creio q foi importante, útil para outros fins, como amadurecer as relações interpessoais entre os elementos da cia. Mas o tempo empreendido, o valor pecuniário investido, o desgaste físico etc, ñ compensam os resultados. Meu pelotão foi o vencedor, mas isso ñ fechou nossos olhos para a qtde de missões desnecessárias e oficinas inócuas, como a Pista de Ação e Reação. Q pena ainda a PM insiste em achar q é Exército: jamais poderá ver o cidadão como inimigo, mas, antes, como servidor desse mesmo cidadão.

Anônimo disse...

Enquantos profissionais de segurança pública reclamam do treinamento militar, saibam que líderes de MST como Rainha Junior e Stellide possuem curso de guerrilha urbana e de selva. Em caso de ações de guerrilha urbana, os rimeiros que darão o combate não serão as forças armadas, e sim a PM. profissionais do CPAC passas dias dentro da caatinga combatento traficantes os quais estão armados com fuzis..não substime o treinamento duro.

Pracinha disse...

O último comentário abordou o ponto central do tema, o qual eu acho que deveria ser o objetivo das jornadas: simular situações reais, a exemplo do enfretamento a guerrilhas rurais e urbanas. Será que esse é o foco da jornada: simular situações reais. Considerando que eu não participei dessa jornada, eu não posso afirmar nada.

Victor disse...

Nesta jornada definitivamente não houve simulação, este tipo de oficina está prevista para ser realizada em outra oportunidade, na JIPOM, onde o objetivo é reproduzir mesmo o cotidiano.
E quanto ao treinamento duro como acontece com a CPAC, este sim é preciso para o desempenho daquela atividade especializada, que não corresponde diretamente com o que aconteceu nesta jornada.

Catahalá disse...

Copiar e colar é muito feio, mas menos feio quando se copia e cola de si mesmo.

Abaixo, CTRL+C, CTRL+V de experiência que relatei lá no Abordagem:

O CFO na PMDF tem um acampamento por ano, geralmente no m ês mais frio. Atualmente não se chama mais acampamento ou instrução de campo. Mudou o nome para algo mais adequado a atualidade, mas não sei como se chama. Nesse estágio da formação são os cadetes do 3º ano que comandam a maioria das instruções, supervisionados pelos oficiais.

Em 1999, tive o privil égio de ter sido instrutor da disciplina "Patrulhas" na referida atividade de Campo, a qual, tradicionalemente, era tão somente militar, nos termos do que foi descrito no ínício deste post.

Ocorre que, mesmo na minha imaturidade profissional de cadete, enxerguei certo distanciamento nas instru ções anteriores com a realidade policial da época. Como regra, as "patrulhas" dos anos anteriores visavam a destruição de um suposto inimigo que intentava tomar o poder, fazendo clara alusão às guerrilhas rurais da década de 70 que foram combatidas pelas PMs.

No cen ário de 1999, com adaptações pessoais do instrutor, o objetivo era localizar um laboratório de refino de entorpecentes em zona rural. O procedimento quando da localização, deveria ser o padrão policial em um estado democrático de direito, ou seja, efetuar prisões e só usar a força dentro dos ditames legais. Outra inovação da instrução foi a utilização de munição de paintball para calibre .38, para os eventuais embates com os traficantes que, obviamente, reagiram à abordagem policial dos cadetes.

Finalizando a instru ção, os policiais deveriam efetuar testes preliminares no material apreendido (maconha real e cocaína simulada, cedidos pelo DPF), valendo-se de sprays de narcoteste, além de tomar o procedimento aplicável ao caso, como voz de prisão, imobilização e condução com correta técnica de algemamento e segurança, preservação de provas no local do crime, etc.

A parte "militar" da coisa, o rala ou traquejo, ficou por conta do pr óprio ambiente desfavorável, o cansaço das caminhadas por horas no cerrado irregular, o frio da madrugada, a necessidade de um deslocamento silencioso, enfim, coisas pelas quais qualquer policial pode passar em atividades de serviço.

Ao final, mesmo com as adversidades, os cadetes foram avaliados em um debriefing, onde foram apontados os acertos e os pontos a serem melhorados na condu ção de ocorrências, havendo também avaliação da instrução por parte dos instruendos.

Como regra geral, os cadetes se divertiram, desopilaram da tens ão exacerbada da atividade de campo e, o mais importante, o ensinamento foi transmitido satisfatoriamente, ao contrário das instruções em que os alunos vivem sob o signo da tensão, como bem ilustrado na cena da granada na mão do aluno que dorme em "Tropa de Elite".

Como de costume, meus caros, excelente a abordagem do tema por vocês.

Cordial abraço,

 
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